Ética, generosidade, honestidade e altruísmo são virtudes cada vez mais raras num mundo onde pessoas cobram para doar sangue e empresas pagam mendigos para guardar lugar em filas. É nessa sociedade que você quer viver?
RIM SEMINOVO - ÚNICO DONO • TRATAR AQUI • / ÓRGÃOS - AS PESQUISAS MOSTRAM QUE GENTE COM MUITO DINHEIRO SERIA PRIVILEGIADA NA BUSCA POR UM RECURSO ESCASSO — OS ÓRGÃOS ALHEIOS. ISSO TERIA UMA CONSEQUÊNCIA TERRÍVEL: LEVAR POBRES A SE MUTILAR PARA QUE PESSOAS COM CONTAS BANCÁRIAS MUITO POLPUDAS PUDESSEM SOBREVIVER. (FOTO: WILL & DENI MCINTYRE/GETTYIMAGES)
As melhores coisas da vida não são coisas”, estampava um muro grafitado perto de casa, alguns meses atrás. Pouco a pouco, a frase se espalhou por São Paulo. Fiquei pensando nas razões pelas quais alguém sente a necessidade de mostrar por aí uma frase tão óbvia. É claro que as melhores coisas da vida não são coisas, não é preciso ser hippie para apreciar o amor ou a amizade. Mas nem sempre o óbvio é tão óbvio assim. Viajei para escrever sobre as cidades que receberam a Copa. Não tinha um grande orçamento para atravessar o Brasil. Então arrisquei algo que não fazia desde a adolescência: pedi um quarto para estranhos. Pelo Facebook e Twitter, publiquei uma mensagem para amigos, amigos de amigos e estranhos em geral. Demorou pouquíssimo tempo para arrumar uma casa em Manaus. Foi sensacional. A generosidade e a hospitalidade das pessoas me fez lembrar o quanto algumas coisas na vida não podem ter preço.
A história me remeteu à minha infância. No bairro onde me criei, havia um ritual quando alguém ia erguer uma casa nova. Aos finais de semana, a pessoa chamava os amigos para ajudá-la a encher a laje. Ninguém cobrava nada, apesar do peso da massa de cal, dos sacos de cimento e das pedras. O anfitrião só tinha de oferecer um churrasco e reservar o dia para a confraternização. Era ofensivo pagar ou pedir pagamento por serviços. A vizinha tomava conta de mim e das minhas irmãs. Minha mãe emprestava o telefone para alguém falar com um parente distante. Às vezes aconteciam abusos de lado a lado, mas havia senso de cooperação e medida. Parece que faz muito tempo, mas isso foi no início dos anos 1990. De lá para cá, muita coisa mudou. Agora, é como se tudo tivesse um preço. Dificilmente alguém vai tomar conta do filho de alguém de graça, mesmo que tenha tempo.
Parece uma história muito particular, mas ela ajuda a contar um fenômeno que está ganhando força nos EUA e na Europa, e de maneira ainda difícil de mensurar no Brasil. É um processo no qual todas as relações sociais se transformam em mercadorias. Para Michael Sandel, filósofo e professor da Universidade Harvard, estamos caminhando para o que ele chama de sociedade de mercado. Nela, empresas pagam mendigos para guardar lugar na fila, pais oferecem dinheiro para que seus filhos tenham boas notas na escola, contrata-se uma empresa para pedir desculpas para uma pessoa ofendida, paga-se fortuna para um cambista por um ingresso da final da Copa e, em casos mais graves, votos e órgãos são vendidos (veja outros exemplos ao longo desta reportagem).
COMPRO E VENDO SANGUE UNIVERSAL TIPO O- / DOAÇÃO - NOS ESTADOS UNIDOS É POSSÍVEL COMPRAR E VENDER SANGUE. NO REINO UNIDO E NO BRASIL, NÃO. CURIOSAMENTE, O SISTEMA DE DOAÇÃO FUNCIONA MUITO MELHOR ENTRE OS BRITÂNICOS, ONDE RARAMENTE FALTA SANGUE NOS BANCOS ESPECIALIZADOS. (FOTO: JUPITERIMAGES)
O mercadismo
O problema é que transformar tudo em mercadoria tem, desculpem o trocadilho, um preço. “Quando o dinheiro toma um papel cada vez maior na política e na vida social, a democracia está em risco”, disse Sandel em entrevista a GALILEU. “Ela depende de importantes valores que não estão no mercado: espírito cívico, educação, investir em espaços públicos onde cidadãos de classes sociais diferentes se encontram.” Lá no bairro da minha infância, a vida comunitária praticamente desapareceu. A sensação de desconfiança das pessoas aumentou. Esse fenômeno vem se repetindo, em maior ou menor escala, em várias regiões do mundo. Nos EUA e na Europa, os dois grandes pilares do pensamento democrático, a crise é mais sentida. E isso acontece justamente porque foi ali que as mudanças que transformaram tudo em mercadoria tiveram início.
O problema é que transformar tudo em mercadoria tem, desculpem o trocadilho, um preço. “Quando o dinheiro toma um papel cada vez maior na política e na vida social, a democracia está em risco”, disse Sandel em entrevista a GALILEU. “Ela depende de importantes valores que não estão no mercado: espírito cívico, educação, investir em espaços públicos onde cidadãos de classes sociais diferentes se encontram.” Lá no bairro da minha infância, a vida comunitária praticamente desapareceu. A sensação de desconfiança das pessoas aumentou. Esse fenômeno vem se repetindo, em maior ou menor escala, em várias regiões do mundo. Nos EUA e na Europa, os dois grandes pilares do pensamento democrático, a crise é mais sentida. E isso acontece justamente porque foi ali que as mudanças que transformaram tudo em mercadoria tiveram início.
O século 20 viu uma disputa feroz entre os adeptos de que o Estado era a melhor forma de organizar a sociedade contra os defensores de que o mercado seria mais eficiente. Era uma espécie de Fla-Flu radical, que terminou com a vitória do mercado. O historiador Tony Judt, no fabuloso livro Pós-Guerra – Uma história da Europa desde 1945, conta como os governos de Ronald Reagan, nos EUA, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, mudaram o jogo. Dois grandes defensores do livre mercado, eles não apenas derrotaram as ditaduras comunistas como abriram caminho para uma era de mercadismo ensandecido. Os mercados financeiros foram desregulamentados, os impostos para grandes fortunas caíram e a ideia de que o mercado poderia resolver qualquer problema se instalou. O extremismo era tão grande que Thatcher gostava de dizer, por exemplo, que não existia sociedade, apenas indivíduos e famílias. Portanto, o Estado não devia se meter na vida de ninguém.
O problema desse pensamento, diz Judt, é simples: ele ignora que a sociedade existe, sim, e que as pessoas se movem não apenas por relações econômicas. Afinal, qual o benefício financeiro de ajudar alguém a encher uma laje ou oferecer um quarto que você poderia alugar para outras pessoas? A comunidade. A Europa foi capaz de sair da crise após a Segunda Guerra Mundial porque criou um modelo no qual as pessoas se viam partes de uma mesma sociedade, trabalhando em torno de um horizonte comum: reconstruir o continente e evitar uma nova guerra. Pense que a ideia de conciliar classes sociais com interesses distintos ganhou força neste contexto.
Democracia em risco
O extremismo de mercado é o equivalente ao extremismo de Estado. Numa sociedade em que dinheiro vale mais do que tudo e na qual tudo está à venda, então quem tem mais sempre terá mais poder. Ao longo do tempo, quanto mais poder elas têm, mais conseguem leis e regulamentações que as favorecem — mesmo que isso aconteça às custas das outras pessoas. Lawrence Summers, ex-reitor de Harvard e um dos principais economistas norte-americanos, é uma das pessoas que mais têm vocalizado essa tese — e ele está longe de ser um esquerdista radical. É um dos homens que mais advogou, ao longo dos anos 1990, pela desregulamentação dos mercados. Só que, tal como muitas pessoas da sua geração, percebeu que isso dá muito problema.
O extremismo de mercado é o equivalente ao extremismo de Estado. Numa sociedade em que dinheiro vale mais do que tudo e na qual tudo está à venda, então quem tem mais sempre terá mais poder. Ao longo do tempo, quanto mais poder elas têm, mais conseguem leis e regulamentações que as favorecem — mesmo que isso aconteça às custas das outras pessoas. Lawrence Summers, ex-reitor de Harvard e um dos principais economistas norte-americanos, é uma das pessoas que mais têm vocalizado essa tese — e ele está longe de ser um esquerdista radical. É um dos homens que mais advogou, ao longo dos anos 1990, pela desregulamentação dos mercados. Só que, tal como muitas pessoas da sua geração, percebeu que isso dá muito problema.
Num artigo para o jornal britânico Financial Times, um dos mais importantes do mundo, Summers conta que, nos EUA, a distância entre as crianças pobres e ricas, em termos de resultados educacionais, dobrou. As crianças mais ricas têm acesso a uma infinidade de coisas que as crianças mais pobres não têm. É como se elas tivessem ficado paradas nos anos 1970, enquanto as mais ricas avançaram para 2014. “Acabamos criando uma sociedade em que é muito difícil ascender socialmente”, afirma Summers. A exigência sobe, mas os meios para atendê-la não. Você trabalha sempre com as mesmas pessoas e conhece gente que sempre está no mesmo círculo social que você.
Estudo do Boston College sobre Riqueza e Filantropia, patrocinado pela Fundação Gates, mostrou que até os muito ricos sofrem nesse contexto. A pesquisa revelou que eles se sentem isolados socialmente. É como viver numa cidade provinciana, sempre com as mesmas pessoas, sempre com medo dos outros e sempre com medo do futuro. Qualquer coisa fora do normal pode se transformar numa ameaça. Basta ver o que aconteceu na época dos rolezinhos, no Brasil. Nunca houve um deles num dos shoppings das áreas nobres da cidade. Mas, por precaução, alguns reforçaram a segurança na porta. Eles não sabiam que a graça dos rolezinhos era ostentar — e não há como fazer isso num lugar em que as pessoas são muito mais ricas do que você.
Todas essas evidências estavam colocadas aí faz um tempo, é verdade. Mas é preciso que alguém anuncie o problema, elabore, para que a gente tenha consciência dele, como defendia o filósofo Ludwig Wittgenstein. O debate sobre os limites do mercado deve muito a duas pessoas. Pelo lado ético e moral, a Sandel. Para ele, uma das armadilhas do pensamento contemporâneo é acreditar que o mercado resolve todos os problemas — e não apenas os do próprio mercado. “Há uma tendência de cada vez mais o discurso público ser governado pelo pensamento de mercado. Nas últimas três décadas, o mercado dominou muitos aspectos da vida social e esvaziou o debate sobre ética”, disse Sandel (leia a entrevista no final da matéria).
Veja o que aconteceu em Fortaleza, durante o jogo Brasil e México, na Copa do Mundo. Três torcedores ofereceram dinheiro a funcionários do Castelão, em Fortaleza, para entrar no estádio vestidos de vendedor de água. Pagaram, ao todo, R$ 1,5 mil. Está dentro da regra de mercado: havia o colete, a oferta, eles foram lá e pagaram o preço. Mais tarde, saíram dizendo que, enquanto o Brasil for um país de terceiro mundo, coisas assim vão continuar acontecendo. Eles mal pararam para pensar nas consequências das suas ações. Preferiram colocar a culpa no país — e não neles.
Sandel vem alertando faz um tempo contra a tentação de ceder a uma única forma de organizar o mundo, ainda mais na sua versão radical. Passamos a tomar decisões não com base se elas são boas ou más, mas se são lucrativas ou não. Bem, alguém poderia dizer: mas onde estão as evidências de que isso está realmente acontecendo? É aí que entra outra pessoa que está mudando o planeta. O francês Thomas Piketty escreveu O Capital no Século 21 e provocou uma pequena revolução intelectual neste ano. Para Paul Krugman, vencedor do prêmio Nobel de Economia, o trabalho de Piketty colocou, finalmente, a desigualdade social no topo dos assuntos mais comentados — e passou a ser discutido por economistas de todo o mundo.
O debate esquenta
Apesar da alusão óbvia a O Capital, o clássico e controverso livro de Karl Marx, que inspirou gerações de socialistas e comunistas, Piketty logo trata de levantar sua tabela de valores. Ele não acredita no comunismo e acha que o mercado é uma ótima forma de organizar uma série de relações sociais. Mas, da mesma forma como o Estado precisava ser limitado para não engolir as nossas vidas, o mercado também precisa. Piketty mostra, com uma série de dados sólidos, que a desigualdade chegou ao pico em 1929. Aí veio a Segunda Guerra Mundial, que mudou o mundo. Logo após o conflito, vários países decidiram implantar políticas sociais que, mais tarde, ficariam agrupadas sob o chapéu de Estado de Bem-Estar Social. A ideia era criar empregos qualificados e uma rede capaz de proteger os cidadãos. Apesar dos seus muitos limites, como a dificuldade em se financiar ao longo das décadas, esse modelo criou na Europa algumas das sociedades mais prósperas e desenvolvidas do mundo. Ele também deu uma pancada poderosa na desigualdade, uma vez que a diferença de renda entre as pessoas começou a cair drasticamente — até que vieram as reformas de Reagan e Thatcher. A renda voltou a se concentrar porque o crescimento dos rendimentos dos ricos começou a ser mais acelerado do que o aumento do PIB. Há evidências práticas disso. Segundo estudos recentes do governo britânico, ingleses ricos vivem, em média, cerca de 10 anos a mais do que seus conterrâneos mais pobres. Apesar de a expectativa de vida no país subir como um todo, ela subiu mais rápido entre os mais ricos, justamente as pessoas que têm como pagar por tratamentos que as outras não podem.
Apesar da alusão óbvia a O Capital, o clássico e controverso livro de Karl Marx, que inspirou gerações de socialistas e comunistas, Piketty logo trata de levantar sua tabela de valores. Ele não acredita no comunismo e acha que o mercado é uma ótima forma de organizar uma série de relações sociais. Mas, da mesma forma como o Estado precisava ser limitado para não engolir as nossas vidas, o mercado também precisa. Piketty mostra, com uma série de dados sólidos, que a desigualdade chegou ao pico em 1929. Aí veio a Segunda Guerra Mundial, que mudou o mundo. Logo após o conflito, vários países decidiram implantar políticas sociais que, mais tarde, ficariam agrupadas sob o chapéu de Estado de Bem-Estar Social. A ideia era criar empregos qualificados e uma rede capaz de proteger os cidadãos. Apesar dos seus muitos limites, como a dificuldade em se financiar ao longo das décadas, esse modelo criou na Europa algumas das sociedades mais prósperas e desenvolvidas do mundo. Ele também deu uma pancada poderosa na desigualdade, uma vez que a diferença de renda entre as pessoas começou a cair drasticamente — até que vieram as reformas de Reagan e Thatcher. A renda voltou a se concentrar porque o crescimento dos rendimentos dos ricos começou a ser mais acelerado do que o aumento do PIB. Há evidências práticas disso. Segundo estudos recentes do governo britânico, ingleses ricos vivem, em média, cerca de 10 anos a mais do que seus conterrâneos mais pobres. Apesar de a expectativa de vida no país subir como um todo, ela subiu mais rápido entre os mais ricos, justamente as pessoas que têm como pagar por tratamentos que as outras não podem.
O DINHEIRO ESTÁ MINANDO A DEMOCRACIA
Não tem preço: O professor de Harvard Michael Sandel defende que amor, amizade, espírito cívico e solidariedade não podem ser comprados
texto • Tiago Mali
Não tem preço: O professor de Harvard Michael Sandel defende que amor, amizade, espírito cívico e solidariedade não podem ser comprados
texto • Tiago Mali
NÃO TEM PREÇO: O PROFESSOR DE HARVARD MICHAEL SANDEL DEFENDE QUE AMOR, AMIZADE, ESPÍRITO CÍVICO E SOLIDARIEDADE NÃO PODEM SER COMPRADOS (FOTO: FELIX CLAY/ GETTY IMAGES)
O senhor tem as aulas mais disputadas de Harvard e ficou tão popular que dá palestras em estádios. O que explica esse sucesso?
As pessoas estão sedentas por discutir grandes questões de filosofia relacionadas com a vida. Elas estão frustradas com as democracias pelo mundo, com a política, com os políticos e com os partidos. A razão para isso é que há um vazio no debate público. Hoje, ele não se volta às grandes questões, incluindo a ética e os valores morais — e as pessoas querem discutir ética e moral.
As pessoas estão sedentas por discutir grandes questões de filosofia relacionadas com a vida. Elas estão frustradas com as democracias pelo mundo, com a política, com os políticos e com os partidos. A razão para isso é que há um vazio no debate público. Hoje, ele não se volta às grandes questões, incluindo a ética e os valores morais — e as pessoas querem discutir ética e moral.
P: Por que há esse esvaziamento do discurso público?
Há duas razões. Há uma tendência de cada vez mais o discurso público ser governado pelo pensamento de mercado. Nas últimas três décadas, ele dominou muitos aspectos da vida social e esvaziou o debate sobre ética. Um dos apelos de adotar os valores de mercado é que eles parecem resolver todas as controvérsias envolvendo duas partes de uma maneira aparentemente neutra. Parece neutra, mas não é. É um erro assumir que os mercados podem definir uma sociedade justa ou o bem público. A segunda razão é que estamos relutantes em entrar em debates éticos em público porque vivemos em sociedades multiculturais e multiétnicas, onde as pessoas discordam sobre o significado de justiça.
Há duas razões. Há uma tendência de cada vez mais o discurso público ser governado pelo pensamento de mercado. Nas últimas três décadas, ele dominou muitos aspectos da vida social e esvaziou o debate sobre ética. Um dos apelos de adotar os valores de mercado é que eles parecem resolver todas as controvérsias envolvendo duas partes de uma maneira aparentemente neutra. Parece neutra, mas não é. É um erro assumir que os mercados podem definir uma sociedade justa ou o bem público. A segunda razão é que estamos relutantes em entrar em debates éticos em público porque vivemos em sociedades multiculturais e multiétnicas, onde as pessoas discordam sobre o significado de justiça.
P: É o que o senhor chama no livro de sociedade de mercado.
O efeito da adoção dos critérios de mercado em geral na sociedade é que passamos a vender coisas que não deveriam ser vendidas. Há empresas nos Estados Unidos que vendem furar a fila. Lobistas, em vez de esperar nas filas das sessões do Congresso, em Washington, pagam a empresas que contratam mendigos para guardar lugar. Por US$ 150 mil você pode comprar o direito a abater um rinoceronte ameaçado de extinção na África do Sul. Ou há crianças que, como estímulo para a leitura, recebem US$ 2 para cada obra lida. São muitos os exemplos de bens cuja venda é moralmente questionável que passaram a ser vendidos sem que a sociedade fizesse uma discussão disso.
O efeito da adoção dos critérios de mercado em geral na sociedade é que passamos a vender coisas que não deveriam ser vendidas. Há empresas nos Estados Unidos que vendem furar a fila. Lobistas, em vez de esperar nas filas das sessões do Congresso, em Washington, pagam a empresas que contratam mendigos para guardar lugar. Por US$ 150 mil você pode comprar o direito a abater um rinoceronte ameaçado de extinção na África do Sul. Ou há crianças que, como estímulo para a leitura, recebem US$ 2 para cada obra lida. São muitos os exemplos de bens cuja venda é moralmente questionável que passaram a ser vendidos sem que a sociedade fizesse uma discussão disso.
P: Rousseau disse que “a partir do momento em que o serviço público deixa de ser a principal preocupação dos cidadãos, que preferem servir com o dinheiro e não mais com seu empenho pessoal, o Estado está perto de desmoronar”. Está perto mesmo?
Rousseau teve um insight que se aplica às democracias hoje. Não usaria a palavra desmoronar, mas quando o dinheiro toma um papel cada vez maior na política e na vida social em geral, a democracia está em risco. Ela depende de importantes valores que não estão no mercado: espírito cívico e educação.
Rousseau teve um insight que se aplica às democracias hoje. Não usaria a palavra desmoronar, mas quando o dinheiro toma um papel cada vez maior na política e na vida social em geral, a democracia está em risco. Ela depende de importantes valores que não estão no mercado: espírito cívico e educação.
P: O senhor cita outros exemplos de vendas moralmente discutíveis em suas palestras. Qual é o pior deles?
Um dos exemplos mais extremos é o da fundação de caridade que tenta resolver o problema dos bebês nascidos de mães dependentes de drogas oferecendo dinheiro para que elas sejam esterilizadas. É uma entidade privada usando um mecanismo de mercado para reduzir o número de bebês nascidos de mães dependentes. Mas os meios são problemáticos, moralmente falando.
Um dos exemplos mais extremos é o da fundação de caridade que tenta resolver o problema dos bebês nascidos de mães dependentes de drogas oferecendo dinheiro para que elas sejam esterilizadas. É uma entidade privada usando um mecanismo de mercado para reduzir o número de bebês nascidos de mães dependentes. Mas os meios são problemáticos, moralmente falando.
P: Quão perto estamos de viver numa plutocracia, sistema político onde o grupo mais rico exerce o poder?
Nas últimas três décadas nos aproximamos cada vez mais dessa condição. O que é surpreendente é que isso está acontecendo com quase nenhum debate público. No Iraque e no Afeganistão, por exemplo, havia mais soldados pagos por empresas privadas contratadas pelo governo do que militares que trabalham para os Estados Unidos. Em várias cidades brasileiras temos parques e praças descuidados enquanto são erguidos ricos condomínios com toda a infraestrutura de parques, espaços comuns e mais segurança. É disso que se trata a sociedade de mercado que falo. Ricos e pobres não se encontram mais. Nos últimos 30 anos, não fizemos investimentos públicos suficientes em espaços comuns que podem ser compartilhados, como transporte público, parques e escolas.
Nas últimas três décadas nos aproximamos cada vez mais dessa condição. O que é surpreendente é que isso está acontecendo com quase nenhum debate público. No Iraque e no Afeganistão, por exemplo, havia mais soldados pagos por empresas privadas contratadas pelo governo do que militares que trabalham para os Estados Unidos. Em várias cidades brasileiras temos parques e praças descuidados enquanto são erguidos ricos condomínios com toda a infraestrutura de parques, espaços comuns e mais segurança. É disso que se trata a sociedade de mercado que falo. Ricos e pobres não se encontram mais. Nos últimos 30 anos, não fizemos investimentos públicos suficientes em espaços comuns que podem ser compartilhados, como transporte público, parques e escolas.
P: As grandes companhias ocuparam esse espaço comum?
Quando governos optaram por ter presença menor e fazer menos investimentos em espaços públicos, isso resultou em serviços públicos falhos, em transporte público inadequado, em escolas, hospitais e segurança ruins. Essa falta de investimento abriu o caminho para a iniciativa privada, que passou a, compreensivelmente, fazer investimentos privados nisso. Isso contribui com a segregação.
Quando governos optaram por ter presença menor e fazer menos investimentos em espaços públicos, isso resultou em serviços públicos falhos, em transporte público inadequado, em escolas, hospitais e segurança ruins. Essa falta de investimento abriu o caminho para a iniciativa privada, que passou a, compreensivelmente, fazer investimentos privados nisso. Isso contribui com a segregação.
P: E, de acordo com o seu livro, corrompe a democracia.
Sim, a democracia requer que pessoas de diferentes origens tenham certas experiências comuns. Como nos esportes, na Copa do Mundo. Mas não basta o esporte para a coesão social. Se não temos espaços públicos, não formamos identidades entre os cidadãos e a democracia é prejudicada.
Sim, a democracia requer que pessoas de diferentes origens tenham certas experiências comuns. Como nos esportes, na Copa do Mundo. Mas não basta o esporte para a coesão social. Se não temos espaços públicos, não formamos identidades entre os cidadãos e a democracia é prejudicada.
P: O senhor diz que ainda há coisas que o dinheiro não compra. O quê?
Amor, amizade, espírito cívico, solidariedade. Essas coisas não podem ser compradas. Ainda assim o dinheiro chega cada vez mais perto de comprá-las.
Amor, amizade, espírito cívico, solidariedade. Essas coisas não podem ser compradas. Ainda assim o dinheiro chega cada vez mais perto de comprá-las.
P: Quão perto?
Há empresas especializadas em fazer discursos de padrinhos em casamentos. Eles passam detalhes dos noivos e a empresa escreve um discurso emotivo com detalhes pessoais para ser dito durante o tradicional brinde. Ou então empresas que você pode pagar para fazer pedidos de desculpas.
Há empresas especializadas em fazer discursos de padrinhos em casamentos. Eles passam detalhes dos noivos e a empresa escreve um discurso emotivo com detalhes pessoais para ser dito durante o tradicional brinde. Ou então empresas que você pode pagar para fazer pedidos de desculpas.
P: O afeto algum dia será comprado?
Sinceramente espero que não [risos].
Sinceramente espero que não [risos].
Via: RevistaGalileu











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